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Monstros Se eu pudesse ter tempo para pensar em tudo o que me passa pela cabeça, simplesmente não estaria aqui. Hoje era cedo quando acordei e o sorriso que me atingiu foi tão ingénuo que tive vontade de me esconder. Não havia razão, simplesmente nunca há razão. Mas sempre tive a ideia de que dentro do guarda-fatos alguém me espiava. Seriam monstros, homens, violadores, príncipes encantados. Não interessa, morria de medo todas noites em que me quis levantar e ir até à casa de banho. Porque nem sempre é fácil encarar a escuridão de uma casa, muito menos quando todo o vazio que nos rodeia tem o dobro da nossa altura. Porém, ainda esta noite me resguardei desse frio intenso. Ainda esta noite tive medo do que pudesse estar dentro do guarda-fatos. Não interessa. Na verdade nunca interessa nada, muito menos aquilo que uma criança pensa.E hoje em que o dia anoitece sinto-me infantil ao esconder a cabeça debaixo dos lençóis. Não me digam que é da minha imaginação. Consigo ouvir claramente o som das unhas a passarem através daquela porta. Consigo perfeitamente entender que não estou sozinha neste quarto. Sei-o pelos passos que caminham indubitavelmente até ao corredor. Quando era criança ao menos tinha uma certeza. O rosto desfigurado pertencia ao meu pai e os passos à minha mãe. Tantas vezes o monstro dentro do guarda-fatos foram aqueles olhos alcoólicos que hoje os príncipes me parecem menos encantados, mais reais. Ao passo que todas as noites o medo cresce. O medo enfurece. O medo embrutece. Poderia dizer que não faz grande sentido o que digo, mas estaria a mentir-me. É tão fácil quanto isto: não faço questão de pensar muito nas coisas, não vá um dia abrir a porta do guarda-fatos e encontrar um monstro verdadeiro. por Lolita * 16:45 domingo, 4 de maio de 2008 ___________________ 1 comments |